MC Ryan SP e a Bololô Records: um novo capítulo no funk nacional

Em uma rua tranquila do Tatuapé, na Zona Leste de São Paulo, ergue-se a sede da Bololô Records. Instalado em uma casa de três andares, o estúdio e escritório da produtora celebra, em apenas três meses de atividade, o feito inédito de ter emplacado a música mais ouvida do país no ranking Billboard Brasil Hot 100.

MC Ryan SP e a Bololô Records: um novo capítulo no funk nacional

 

“Posso Até Não Ter Dar Flores”, faixa assinada pelos MCs Meno K e Ryan SP em parceria com MC Jacaré, e produzida por Japa NK e Davi Dogdog, ocupa o topo da lista oficial. O sucesso reflete a filosofia da Bololô Records: criar oportunidades de dentro para fora, pela perspectiva dos próprios funkeiros.

Das ideias de MC Kevin ao sonho de Ryan SP

O impulso inicial para a Bololô veio de MC Kevin (1998-2021). Poucos meses antes de sua morte, aos 23 anos, em um acidente em um hotel no Rio de Janeiro, Kevin buscava autonomia na carreira, distanciando-se da fórmula tradicional de entregar seu destino artístico inteiro às mãos das produtoras. Com sua iniciativa, ele abriu caminho para que artistas do funk passassem a gerir seus projetos diretamente.

Quatro anos após o falecimento precoce de Kevin, Ryan SP, que ainda carrega o apelido de “gordinho do bololô” pelas confusões da adolescência, retoma e amplia essa proposta. A Bololô Records nasce justamente para continuar o projeto interrompido pelo ídolo, agora com estrutura própria e visão de mercado voltada ao fortalecimento das vozes emergentes do gênero.

Construindo o cast e o diferencial de mercado

À frente da empresa, Ryan SP dedica-se a selecionar e desenvolver novos talentos. Um exemplo é a chegada de Meno K, artista gaúcho conhecido pela faixa “Camisa do Grêmio”. Quando viu o colega em baixa de desempenho, Ryan sugeriu que outros MCs fizessem parcerias com Meno K, sem vislumbrar ganhos próprios. Meses depois, reconhecendo seu apelo e potencial, a Bololô desembolsou R$ 200 mil para assegurar o passe do artista.

Durante a visita da equipe da Billboard Brasil à Bololô, Ryan SP, mais do que entrevistado, assumiu a função de anfitrião. Explicou que as salas ainda estão sendo ocupadas pelo time de A&R, marketing e demais setores — todas decisões passam antes por seu crivo.

O “faz-tudo” que divide palco e escritório

Além de empresário, Ryan SP mantém carreira artística consolidada. Com shows frequentes e público mensal superior a uma dezena de milhões no Spotify, ele afirma encontrar prazer em passar horas no estúdio, tanto para suas composições quanto para planejar lançamentos de clientes. “Música é a minha verdadeira paixão”, resume.

Com apenas 24 anos, o MC já viveu os extremos: do estouro precoce na adolescência a polêmicas públicas envolvendo violência doméstica. Hoje, ele reforça o papel de pai e marido: “Dedico domingo e segunda à minha esposa e à minha filha. Não abro mão disso por nada”. Ao comentar os fios grisalhos que surgem sob o boné, brinca: “Já estou cheio de cabelo branco”.

Modelos de negócios e parcerias estratégicas

O primeiro artista a ganhar atenção de Ryan SP foi MC Daniel, a quem ele orientou a sair às ruas até perceber seu carisma como diferencial competitivo. Mais adiante, o empresário também impulsionou MC Negão Original, demonstrando a capacidade de transformar perfis periféricos em nomes de massa por meio das redes sociais.

Hoje, o que começou como uma iniciativa isolada de MC Kevin ganha corpo no mercado. Ao cuidar da carreira de outros cantores, Ryan SP mostra que é possível negociar diretamente com grandes gravadoras: a Bololô Records tem distribuição da Warner Music e já figura como um exemplo de selo autoral e independente.

Quando questionado sobre o segredo de um selo tão jovem alcançar o primeiro lugar no Hot 100, o funkeiro sorri e admite: “Só Deus explica”. E, com disciplina e visão, parece determinado a provar o contrário.